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Por que os gestores verdadeiramente ativos podem vencer no mundo do beta

Sexta feira, 10/06/2017

O debate entre a gestão ativa e a gestão passiva é muitas vezes considerado como um divisor do mundo do investimento em dois campos irreconciliáveis. No entanto, acredito que as gestões ativa e passiva não são necessariamente incompatíveis.

Sexta feira 06/10/2017 - 14:00
Katia Coudray CEO da SYZ Asset Management
Eu penso que vale mais estar entre as melhores empresas de gestão do que entre as maiores.
Katia Coudray CEO da SYZ Asset Management

Se a ascensão da gestão passiva representa um desafio, os gestores verdadeiramente ativos não devem ficar obcecados pelas pressões crescentes do beta, mas devem, no entanto, se preocupar com a criação de valor para os investidores.

A era da gestão passiva teve início de forma singular. Em 1975, John C. Bogle, fundador da Vanguard, inspirado por um artigo publicado em 1974 por Paul Samuelson, Prêmio Nobel de Economia, revolucionou o mundo das finanças ao criar a gestão de exposição automática ao mercado sem gestores ativos.

Desde então, o desenvolvimento de veículos de investimento passivo levou a mudanças positivas: uma evolução natural decorrente de mais inovação e maior atenção dedicada aos custos e às despesas. Os veículos de gestão passiva oferecem uma exposição de baixo custo ao mercado e melhor acesso a classes de ativos menos comuns. Contudo, o legado mais significativo que eles deixarão para o setor de investimentos talvez seja sua democratização, pois permitem a entrada de um maior número de pequenos investidores no mercado por meio de corretores que empregam a gestão automatizada.

Hoje em dia, mais de quarenta anos depois de sua introdução, cada vez mais os dados confirmam que os fundos de gestão passiva superam o desempenho da maioria dos fundos gerenciados ativamente. Uma constatação que suscita a questão da justificativa dos encargos de gestão, especialmente em períodos de baixo crescimento e de taxas de juros extremamente baixas. A gestão ativa nunca foi objeto desse escrutínio. Estamos em um momento em que ela deve demonstrar sua capacidade de acrescentar valor agregado.

Ameaça de extinção

Com o surgimento dos veículos de gestão passiva e das estratégias smart beta, os responsáveis pela alocação de ativos questionaram, com razão, a existência de "fundos de índice disfarçados" ou de benchmark huggers ativos. Para o setor de gestão ativa, as estatísticas são preocupantes. Segundo um estudo da SPIVA comparando as estratégias ativas com os índices S&P, por um período de cinco anos, somente 25% dos gestores ativos superaram o índice S&P Europe 350 e apenas 11% excederam os índices dos mercados emergentes. Além disso, outro resultado é ainda mais alarmante: menos de 10% dos gestores ativos superaram o desempenho dos principais índices americanos.

Nesse contexto, os gestores ativos devem se perguntar se, de fato, estão criando valor agregado ou o que hoje chamamos de uma "gestão de alfa verdadeiro ou gestão ativa". Para alguns, isso pode suscitar questões profundas sobre a filosofia da empresa e a construção dos processos de investimento. Por enquanto, os responsáveis pela alocação de ativos devem se perguntar o que faz uma gestão realmente ativa e onde encontrá-la. Em relação aos que continuam a replicar os índices, a ameaça de extinção é real e iminente.

Alta de alfa gerado por uma "verdadeira" gestão ativa

O que é a verdadeira gestão ativa? A parte ativa ilustra a diferença entre uma carteira e seu índice de referência. A ESMA definiu um limite superior a 60% para que um fundo seja considerado como ativo e, atualmente, nossos fundos são compostos por uma parte ativa de mais de 80%.

Em termos de processos, os gestores ativos podem gerar um alfa verdadeiro ao explorar constantemente as ineficiências de preço e ao adotar posições ativas em relação a um índice de referência com base nos dados fundamentais das empresas. Desse modo, em vez de sofrer rotações setoriais que poderão surpreender estilos de investimentos baseados em fatores, como o investimento momentum, os gestores ativos podem se beneficiar. Os gestores verdadeiramente ativos podem também integrar análises internas e adotar posições de contracorrente para detectar anomalias de valorização.

Os gestores ativos podem também exercer um papel importante ao tomar decisões de alocação de ativos eficazes no escopo das quais as equipes de investimento multiativos reagem a conjunturas flutuantes.

O tamanho é importante

Algumas análises afirmam que o tamanho constitui um fator importante de geração de alfa. Simplesmente, na maioria dos casos, quanto maior for o fundo, mais difícil é explorar as ineficiências do mercado.

Por exemplo, segundo a Lipper, o tamanho médio dos dez maiores fundos de ações europeias é de EUR 4,6 bilhões. O desempenho ativo gerado por esses dez atores nos últimos cinco anos aumentou em 1,5% ao ano, líquido de encargos. No entanto, o desempenho anualizado médio dos dez fundos com melhor desempenho desse universo nos últimos cinco anos é de 13,3%, enquanto que seu tamanho médio se estabelece em somente EUR 311 milhões. Contudo, se estendermos a seleção aos 30 melhores fundos em cinco anos, o tamanho médio continua modesto (EUR 500 milhões), mas o desempenho médio ao ano continua alto (9%).

Para remediar esse problema endêmico, é preciso, por um lado, que os selecionadores de fundos comecem a inverter a tendência de uma predileção pelos grandes fundos ativos e, de outro, que as empresas de gestão ativa reavaliem seus controles de capacidade para assegurar que seus processos sejam capazes de continuar a gerar um alfa verdadeiro.

As fusões e aquisições são inimigas do alfa verdadeiro?

Em minha opinião, é melhor estar entre os melhores do que entre os maiores. Os gestores estão cada vez mais diferenciados no contexto atual. Na corrida para o crescimento de ativos, as fusões espetaculares dão à luz empresas de gestão colossais, o que parece indicar que o setor de gestão ativa não tem outra escolha a não ser se organizar em grandes entidades.

Considero essa tendência preocupante. Ela pode provocar maior concentração de montantes importantes de capitais, aumento das restrições de liquidez e redução da capacidade dos gestores ativos de explorar as ineficiências do mercado e de investir em títulos inéditos ou em setores negligenciados. Os gestores serão cada vez mais forçados a investir em ativos importantes e líquidos próximos dos índices, reduzindo assim os fatores de diferenciação.

As fragilidades da gestão passiva

Não somos contra o investimento passivo e consideramos que os gestores ativos também podem se beneficiar de seu desenvolvimento mantendo a fidelidade ao seu DNA de criadores de alfa e oferecendo aos investidores soluções sustentáveis e complementares.

Contudo, é importante que os responsáveis pela alocação de ativos estejam cientes dos limites da gestão passiva. Se os inconvenientes da gestão ativa foram amplamente discutidos, é preciso saber que os produtos de investimento passivo deverão enfrentar certas dificuldades.

Um possível obstáculo pode ser a direcionalidade do mercado que contribuiu para o crescimento desses produtos desde a crise financeira: a gestão passiva, ou o beta puro sobre as ações, se desenvolveu a favor do mercado constantemente em alta desde o início de 2009. Desde então, o S&P 500 e o STOXX Europe 600 registraram um desempenho anualizado de 14.9% e 11,9% respectivamente (Bloomberg, 31.12.2008 - 30.09.2017). Infelizmente para os investidores, os mercados de ações não progridem indefinidamente em linha reta e nós podemos ver rotações adversas ao desempenho do índice. Além disso, nem todos os ETFs se limitam a encargos de dez ou quinze pontos-base. Esses encargos podem, às vezes, ser mais elevados. Por exemplo, alguns ETFs dos mercados emergentes exibem um TFE de 72 pontos-base.

O aumento dos fundos passivos não ameaça fundamentalmente a existência dos gestores verdadeiramente ativos que buscam gerar um alfa regular para os investidores. Ao contrário, ele permite diferenciar melhor os tipos de gestão e reviver a ideia de uma gestão verdadeiramente ativa na mente dos investidores.

Quanto mais o setor de gestão ativa identifica e soluciona suas deficiências, mais ele reforça sua credibilidade em longo prazo. Isso envolve demonstrar o valor que esse tipo de gestão pode acrescentar e apresentar aos clientes soluções de gestão verdadeiramente ativa. Só então a confiança na capacidade dos gestores ativos para gerar rendimentos sustentáveis que justifiquem os custos será restabelecida.

Be aware: some trackers do not meet their objective
Esteja ciente de que alguns rastreadores não atingem seu objetivo
Fonte
SYZ Asset Management, Bloomberg. Dados de: 30 setembro 2017